Perante a atual realidade a qual estamos vivenciando, onde a necessidade de colocarmos a nossa saúde e integridade físicas como prioridade, torna-se ainda mais necessário nos policiarmos quanto a nossa saúde mental, além dos possíveis reflexos que o isolamento e distanciamento sociais possam ter sobre ela. O time do NMP convidou os especialistas Ana Albuquerque (CRP 06/131525) e Douglas Felix (CRP 06/151743), sócios-fundadores do Canto Baobá, uma clínica de psicoterapia localizada no centro de São Paulo, criada com o intuito de democratizar o acesso aos tratamentos psicoterapêuticos, a partir de valores sociais.

 

NMP: Primeiramente, gostaríamos de agradecer por terem aceitado participar desse bate-papo com a gente! E para começar, nos falem um pouco sobre a importância de nos atentarmos a nossa saúde mental?

 

Douglas: É um autocuidado necessário, principalmente neste momento, mediante a avalanche de informações que estamos recebendo sobre o novo coronavírus. Recentemente eu estava assistindo a uma matéria da Globonews onde foi falado que alguns psicólogos e psiquiatras estão começando a refletir e se preparar para as consequências emocionais do pós-COVID-19, principalmente a respeito dos traumas que os profissionais da área da saúde, que estão à frente dessa pandemia, podem desenvolver. Quais serão os tipos de ansiedade que eles podem passar a sofrer após essa fase? As questões de saúde mental, que comumente eram deixadas de lado, nunca foram tão valorizadas!

Ana: E tem se falado muito sobre os cuidados físicos que devemos tomar, mas não dá para separar o físico do mental pois, como iremos tomar medidas preventivas se nossa cabeça não consegue acompanhar esse ritmo? Chegamos em um ponto onde tudo está interligado: existem sentimentos coerentes a pandemia e o isolamento e, em contrapartida, existem sentimentos e sintomas que as pessoas já carregam, anteriores a esse momento. Nosso trabalho consiste em acolher esses sentimentos e não mascarar eles, com o objetivo de que os nossos pacientes não acumulem toda essa carga emocional, desencadeada pelo isolamento social.

 

 

NMP: O isolamento social pode desencadear ou agravar alguns quadros clínicos?

 

Douglas: Sim, como ansiedade, síndrome de pânico e depressão, por exemplo. Existem pacientes que são diagnosticados com ansiedade e síndromes de pânico corriqueiras, e como a Ana falou, é necessário validarmos esses sentimentos e destrincharmos os porquês de o paciente estar assim, assim como as questões que colaboram com esse agravamento.

Ana: De fato, pode desencadear e isso está diretamente ligado à questão anterior. Quando reconhecemos que a pandemia carrega uma carga sentimental e, podemos classificar e nomear isso, a pessoa não carrega, necessariamente, um diagnóstico. Assim conseguimos minimizar o sentimento de culpa que as pessoas carregam por acreditarem que estão “perdendo o controle” da situação, pois a partir desse processo de mapeamento é possível compreender que está tudo bem em não se sentir bem e, além disso, é normal que elas estejam sentindo coisas diversas. Até em casos de pacientes diagnosticados com depressão e ansiedade, que podem ser agravadas por conta desse histórico, é possível controlarmos a situação.

 

 

NMP: E em casos de possíveis crises em decorrência do isolamento, qual é a melhor solução?

 

Ana: Mantermos as conexões com pessoas de confiança, pois o fato de estarmos de quarentena não significa que precisamos nos isolar de todas as formas de contato, por isso é importante nos conectarmos com amigos e família. Também é importante controlarmos a quantidade de informações que consumimos nesse período, além de, caso seja possível, praticar atividades físicas, tentar manter uma rotina com atividades que a pessoa goste de fazer e não priorizar a ideia de “ser produtivo” durante todo esse período. Ninguém deve se cobrar por estar sempre produzindo, é muito importante criarmos rotinas onde nos possibilitemos bem-estar também. E claro, se as crises começarem a ficar intensas, é preciso buscar a ajuda de um profissional.

 

 

NMP: Os atendimentos psicológicos online são tão efetivos quanto os presenciais?

 

Ana: É importante lembrar que o Conselho Federal de Psicologia aprovou em 2012 o atendimento online, primeiramente em uma plataforma propriamente deles e posteriormente provaram o uso de outras plataformas. Essa normativa, portanto, já existia e foi liberada justamente para poder democratizar o acesso à psicoterapia, chegando aos bairros mais distantes, cidades onde não há um número expressivos de profissionais e até mesmo em outros países onde a pessoa se sente mais confortável em realizar a psicoterapia em sua língua materna.

Douglas: Mesmo preferindo o atendimento presencial, o online está sim no mesmo parâmetro. Mas com a técnica e o manejo, onde estivermos, conseguimos realizar nosso trabalho. Tudo vai depender da capacidade do profissional em acolher o paciente. No início parece diferente até para nós, mas garantimos que o nosso papel é cumprido da mesma forma. Em muitos casos essa plataforma facilita o acesso a psicoterapia, utilizando a tecnologia a favor da saúde nos mais amplos modos.

 

 

NMP: A quais pontos o profissional deve se atentar durante os atendimentos online?

 

Ana: O atendimento online exige mais do profissional por conta de fatores externos como possíveis oscilações de internet e paralisações que podem ocorrer durante o atendimento, além da limitação na interpretação através da análise corporal por estarmos vendo apenas o rosto do paciente. Isso nos leva a trabalharmos muito mais com a fala e, consequentemente, o diálogo do que com a interpretação de gestos ou comportamentos, que são mais claros no setting de atendimento. Também devemos nos atentar aos sentimentos que já vinham sendo trabalhados e os sentimentos advindos ao isolamento social, que são naturais em momentos de calamidades.

 

 

NMP: E para finalizarmos, como podemos nos manter mentalmente estáveis durante esse período?

 

Douglas: O que estamos escutando muito em nossos atendimentos é a questão da produtividade. Temos que lembrar que estamos em um outro ambiente, e que a produtividade realmente vai ser diminuída ao que a pessoa consegue fazer nesse momento. Estamos passando por tantas coisas, são tantas questões para elaborarmos, acredito que a principal dica é não nos cobrar por não “sermos” produtivos o suficiente.

Ana: Estamos lidando com a perda de várias situações cotidianas. Precisamos entender e aceitar que alguns dos nossos dias não serão positivos ou repletos de realizações pessoais e que, mesmo assim, está tudo bem! E se possível, façam terapia!

 

 

O Canto Baobá está de portas fechadas por conta do novo Coronavírus, atendendo todos os seus pacientes de forma remota. Após a pandemia, retornarão aos atendimentos presenciais de segunda à sábado. Atualmente, conta com uma equipe de cinco pessoas que movimentam, por semana, mais de 150 pacientes.

 

 

 

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